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Temos que ser uns para os outros

"Temos que ser uns para os outros." Foi esta a expressão que me veio tantas vezes à mente ao longo desta quarta-feira, em Estrasburgo, onde o Azul esteve a cobrir ao minuto a audiência no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) onde foi analisado o processo de seis jovens portugueses que exigem a 32 países que façam a sua parte para conter as alterações climáticas - cumprindo o seu dever de proteger os direitos humanos destes jovens cidadãos. 

Logo à chegada ao tribunal, às 7h30 da manhã (6h30 na hora de Lisboa), André, Catarina, Cláudia, Mariana, Martim e Sofia foram recebidos de braços abertos por seis das "KlimaSeniorinnen", uma associação de mulheres reformadas da Suíça que também processam o seu país.

Os casos chegaram ao TEDH com uma diferença de poucos meses. Rosmarie Wydler-Wälti, vice-presidente da associação, segura nas mãos uma cópia de um desenho que a pequena Mariana (a mais nova do processo português), quando ainda tinha oito anos, enviou às "avós do clima" nesse ano de 2020. Desde então, caminham de mãos dadas. "Temos o mesmo objectivo, é importante que sejamos muitos!", insistia Pia Hollenstein, ao seu lado.

Estes jovens dedicaram os últimos seis anos da sua vida a um processo para combater a inacção climática de 32 países. Mas não estiveram sozinhos. Ao longo de todo o processo, foram apoiados pela Global Legal Action Network (GLAN), que coordenou todo o apoio legal, e pela plataforma Avaaz, que se juntou para ajudar na promoção do crowdfunding.

Afinal, um processo num tribunal internacional não é barato. Quase 3500 pessoas responderam ao apelo, reunindo mais de 100 mil euros para caminharem também de mãos dadas com os seis jovens portugueses. E apesar de não serem muitas as pessoas concentradas à porta do TEDH (Estrasburgo não é uma cidade assim tão barata de chegar), aquela rede de suporte fez-se ouvir através de cartazes com mensagens de vários países. 

A audiência foi excepcional não apenas porque são pouquíssimos os casos que o TEDH leva à Grande Chambre, mas por este ser o primeiro caso com dezenas de Estados na berlinda. Ao todo, estiveram presentes 87 representantes de 31 países (a Rússia não esteve presente). Uma lotação tão inédita que a distribuição das salas teve que mudar: as partes assistentes tiveram que assentar arraiais na biblioteca, e algumas das pessoas que vieram assistir ao julgamento, que por norma ficam nas cadeiras enfileiradas atrás dos bancos dos protagonistas, foram distribuídas por outras salas, incluindo a sala de imprensa (eu, por exemplo, fiquei sentada a poucas cadeiras das KlimaSeniorinnen). 

Enquanto tinha a atenção focada na audiência em Estrasburgo, a equipa do Azul no Porto e em Lisboa trazia links, fotos e vídeos para a nossa cobertura online ao minuto. No intervalo da audiência, era altura de parar para reflectir sobre o que esperar da tarde. Tal como na redacção tenho contado com colegas da área da Justiça, refugiei-me junto a uma jornalista com larga experiência em tribunais internacionais para trocar ideias e verificar se havia algum ponto que me estivesse a escapar ou que estivesse a interpretar de forma diferente. Não é à toa que casos complexos deste tipo chegam ao TEDH. Os argumentos jurídicos, muitas vezes técnicos, vão muitas vezes ao fundo da questão: os Estados estão apenas a seguir as leis ou são capazes de fazer justiça?

À saída do tribunal, mesmo exaustos, os seis jovens falaram calorosamente com a imprensa, primeiro em conjunto, depois em declarações individuais - no podcast do Azul vai poder ouvir este balanço feito por alguns deles. Deixo um cheirinho da conversa com Sofia Oliveira, de 18 anos, que viajou para Estrasburgo no meio das suas primeiras semanas como caloira. Conta que na faculdade poucas pessoas sabiam deste processo. Mas esta quarta-feira, depois de a reconhecerem nas notícias, Sofia tinha mais de 100 mensagens de apoio quando saiu do tribunal. "Mesmo que esteja cansada, isso faz com que queira continuar, saber que estou a lutar por algo que vai dar frutos no futuro."

Temos que ser uns para os outros - também, e talvez principalmente, no contexto da crise climática, onde a luta é uma realidade cada vez mais inevitável e o caminho para a justiça só se faz com solidariedade entre Estados e pessoas. Foi com um sorriso nos lábios e provavelmente o coração preenchido que, depois de se livrarem do enxame de jornalistas, os jovens saíram dos portões do TEDH e encontraram as suas companheiras "avós do clima", de risadas prontas e braços abertos para continuarem juntos a caminhada.