Portugal
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O bom, o mau e o assim-assim

Procura-se secretário-geral do Partido Socialista e primeiro-ministro de Portugal. Terá sido visto pela última vez na zona de Machico, rodeado de um grupo diminuto de pessoas que empunhavam, sem grande entusiasmo, a bandeira do PS. Qualquer informação sobre o paradeiro do sujeito desaparecido deverá ser reportado ao PS Madeira. Segundo foi possível apurar, a razão do desaparecimento estará relacionada com dificuldades em cumprir com a promessa de solidariedade aos socialistas locais.

O bom: Mónica Freitas

A improvável vencedora das eleições do passado Domingo, esteve para nem ser cabeça de lista do partido que a candidatou. Mónica Freitas não teve o maior número de votos, o seu partido apenas elegeu um deputado numa assembleia de 47 e o seu mandato apenas foi confirmado na última hora da contabilidade eleitoral. Ainda assim, na última semana, a política na Madeira gravitou em redor da candidata do PAN. Infelizmente, nem sempre pelas melhores razões. Vasculharam-lhe as redes sociais, desenterraram vídeos antigos, montaram e partilharam imagens de gosto duvidoso e, pelo meio, acusaram-na da maior traição política de que há memória na política regional. Perante a turba enfurecida, sedenta de sangue, a deputada eleita não tremeu, ou se o fez, ninguém reparou. Falou sempre com confiança e com a rapidez de quem sabe bem ao que veio. Entre o conforto de rejeitar um acordo com o partido mais votado e o risco de viabilizar um governo para pôr em prática o programa que levou a votos, a deputada do PAN escolheu o caminho mais difícil. Não faltou quem lhe apontasse o dedo, da esquerda à direita, de um extremo ao outro. Ora porque o acordo com o PAN teria sido feito a preço de saldo, ora porque o acordo teria sido preferível com outro partido ou, para os mais atrevidos, que qualquer acordo constituiria uma fraude eleitoral. Na verdade, o único crime da Mónica foi dar oportunidade às causas que levou a votos e que constam do programa do PAN. Afinal, o problema não foi o PAN ter feito um acordo. O problema foi o PAN ter feito um acordo com o PSD.

O mau: Sérgio Gonçalves

Não terá sido por falta de aviso. O trambolhão eleitoral do PS aconteceu com estrondo mas, certamente, sem grande surpresa. Os socialistas não só falharam a sua afirmação como alternativa de governo, uma vez que a coligação que juntou PSD e CDS teve o dobro dos votos do PS, como perderam em todos os seus bastiões autárquicos - Machico, Porto Moniz e Ponta do Sol. A dupla dimensão da derrota do PS – primeiro, junto dos eleitores flutuantes, mas também junto das suas bases locais – tornava o discurso de Sérgio Gonçalves, no final da noite eleitoral, relativamente previsível. A um líder partidário que perde mais de 20 mil votos e metade de um grupo parlamentar, restam poucos caminhos para além da demissão. O presidente do PS encontrou um caminho alternativo. Fugiu para a frente e desapareceu. Numa curta intervenção, Sérgio Gonçalves desculpou a hecatombe com a dispersão de votos e, num momento que ficará para a história do contorcionismo político, declarou o PS como única alternativa de governo para a Madeira. O PS que não ganhou um único concelho, nem uma única freguesia. O PS que se estatelou nas urnas de voto. Quanto mais se desculpava o líder do PS, mais ensurdecedor se tornava o barulho das facas a afiarem-se nas suas costas. Sérgio pode ter sido vítima do calculismo socialista que o empurrou para a liderança do partido, mas depois da noite de Domingo é culpado de querer agarrar-se ao que há muito desapareceu. A sua carreira política.

O assim-assim: Coligação Somos Madeira

Em qualquer democracia do mundo, vencer em todos os concelhos, ganhar na esmagadora maioria das freguesias, duplicar o número de votos em relação ao 2.º partido mais votado e reunir mais de 40% dos votos seria a definição de uma goleada eleitoral. Por cá, foi uma lição que os eleitores quiseram dar ao PSD. Um sinal, provavelmente de fumo, de que os eleitores querem ver os partidos da oposição no governo. A vitória da coligação PSD/CDS deu para tudo, só não deu para a maioria absoluta. Foi uma boa votação, mas um resultado assim-assim. Essa é a primeira conclusão a retirar das eleições na Madeira. A coligação não gerou qualquer ganho eleitoral face a 2019. Em alguns concelhos (São Vicente e Câmara de Lobos), o PSD teve mais votos sozinho do que coligado e, em todos os outros, os ganhos foram marginais. A conclusão é aritmética, mas tem de ter consequências políticas. Sem dramas ou amuos. A segunda conclusão é de que o parlamentarismo só é louvável quando serve à esquerda partidária. Os mesmos que, na República, montaram uma geringonça para subverter um resultado eleitoral, gritaram horrores perante os acordos firmados na Madeira. Imagine se, como aconteceu com António Costa em 2015, o PSD não tivesse sido o partido mais votado. A terceira conclusão é a tentação pelo centralismo partidário que a discussão sobre os acordos parlamentares causou. Para os diretórios políticos nacionais, toda a política regional deve submeter-se à aprovação prévia de Lisboa e decidida nos termos que lhes der mais jeito. Não irão muito longe.