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Escritora Alice Vieira vence prémio ibero-americano de literatura infantil e juvenil

A escritora portuguesa Alice Vieira é a vencedora da edição deste ano do Prémio Ibero-americano SM de Literatura Infantil e Juvenil, anunciou o júri do galardão atribuído pela Fundação SM que tem o valor de 30.000 dólares (cerca de 28.000 euros) e é atribuído pelo conjunto da obra literária.

"Há muita gente que diz, 'ai eu, prémios, que horror não quero'. Eu gosto de tudo! Se me quiserem dar, eu aceito! A gente trabalha tanto, que ao menos que aquilo que a gente faça seja reconhecido, não é? Gostei muito deste prémio e até nem estava a acreditar", reagiu entre gargalhadas a autora de 80 anos em declarações à Lusa.

A autora de Rosa, minha irmã Rosa foi distinguida pelo seu "estilo pessoal que transcende gerações e culturas", assim como pela "grande qualidade literária e diversidade da sua obra", como se lê no comunicado esta sexta-feira divulgado pela fundação ibero-americana dedicada à educação, e na página do prémio, na Internet. "Ainda por cima, foi dado por unanimidade e todos os membros do júri quiseram dar-me os parabéns e passei o tempo todo a dizer gracias, gracias, gracias", exclamou a autora.

Alice Vieira "constrói de forma verosímil personagens infantis e juvenis cativantes, com sentimentos profundos e complexos", acrescenta o júri, destacando a capacidade de a autora "perceber e interpretar o mundo interior de crianças e adolescentes", através de uma "observação apurada dos pormenores da vida quotidiana", e o modo como assim consegue "transformar uma história local em universal".

O prémio foi criado em 2005 pela Fundación SM (México) e tem a colaboração da UNESCO, do IBBY, do Centro Regional de Fomento do Livro na América Latina e no Caribe e a Organização dos Estados Iberoamericanos para a Educação Ciência e Cultura, assim como da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México. Alice Vieira é a primeira autora portuguesa a ser distinguida, juntando-se a uma galeria de galardoados como María Teresa Andruetto (Argentina), Ana Maria Machado e Marina Colasanti (Brasil), Jordi Sierra i Fabra (Espanha), Yolanda Reyes (Colômbia) e Antonio Orlando Rodríguez (Cuba).

O júri do prémio foi constituído por Juana Inés Dehesa Christlieb, da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), Freddy Gonçalves da Silva, do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe (CERLALC), Alicia Espinosa de los Monteros, pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens (IBBY México), Rodrigo Morlesin, da secção mexicana da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), e por Teresa Tellechea Mora, em representação da Fundação SM.

A escritora portuguesa foi escolhida entre 14 finalistas. Este ano o prémio recebeu candidaturas de autores provenientes da Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, México, Portugal e Uruguai. A autora, que já tinha sido candidata ao prémio em 2016 e 2018, é a primeira portuguesa distinguida pelo prémio que reconhece "a trajectória de escritores ibero-americanos" de literatura infantil e juvenil no espaço ibero-americano, em língua portuguesa ou espanhola.

Em anos anteriores, foram candidatados ao prémio, por proposta da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), autores como António Torrado, Luísa Ducla Soares, António Mota e Maria Teresa Maia Gonzalez.

De acordo com a DGLAB, Alice Vieira é "a escritora portuguesa de livros para jovens mais traduzida e divulgada no estrangeiro".

A entrega do prémio está marcada para 28 de Novembro, durante a Feira de Guadalajara, no México, mas Alice Vieira ainda não sabe se estará presente, recordando os seus 80 anos e a vontade de abrandar.

"Farto-me de ir a escolas, a livrarias, a bibliotecas, agora já não vou tanto porque estou velha e agora tenho que ter calma", disse."Eu agora até tenho escrito pouco para jovens, tenho escrito mais para adultos ou então aqueles livros que podem ser lidos por jovens e adultos, que é mais ou menos aquilo que eu faço. Mas agora estou assim um bocadinho mais calma. Já são 80 livros publicados, já chega. Não me tirem é o trabalho dos jornais."

E acrescentou: "Se a minha editora dissesse 'olha já tens 80 livros publicados, já chega, pára.' Eu parava logo! Agora jornais não, não me tirem, porque eu digo sempre que sou uma jornalista que escreve livros, isso é que não. Agora o resto, sim, parava".

Actualmente, Alice Vieira diz estar a escrever um novo livro para adultos - "mas isto vai devagarinho, ainda tenho pouca coisa escrita" - e colabora com quatro jornais e revistas, entre os quais o Jornal de Mafra e a revista Audácia. "Isto ajuda-me a estar bem e a pensar", admitiu.

Nascida em 1943, licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alice Vieira soma uma carreira literária de mais de 40 anos, que conjugou com o percurso no jornalismo.

Entre os prémios que recebeu destacam-se o Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil por Este rei que eu escolhi (1993), o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da obra (1994) o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho pelo livro de poemas Dois corpos tombando na água (2007).

Alice Vieira já esteve nomeada para os prémios Hans Christian Andersen e ALMA - Astrid Lindgren Memorial Award.

No domínio da literatura para crianças e jovens, é autora de obras como Úrsula, a maior, Os olhos de Ana Marta, Viagem à roda do meu nome, A espada do rei Afonso, A charada da bicharada e Este rei que eu escolhi.

Em entrevista à agência Lusa, quando assinalou 40 anos de carreira em 2019, Alice Vieira atribuiu o sucesso de Rosa, minha irmã Rosa, o seu primeiro livro para jovens, a "uma maneira diferente de escrever para os miúdos".

"Talvez também o facto de eu ser jornalista. Eu gosto mais de escrever histórias do nosso tempo, histórias de agora e quem começar a ler agora [o Rosa, minha irmã Rosa] e for ler os livros até ao fim, tem um bocadinho a evolução da nossa vida", afirmou então.

Na altura, olhando para o seu percurso, a escritora disse à Lusa que, com a escrita para os mais novos, cumpriu uma promessa pessoal: "Tive uma infância complicada e lembro-me de ter dito para mim própria: "Nunca me hei-de esquecer disso". Foi um bocadinho vingança".