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Chumbo a Feijóo e exigências dos independentistas aumentam risco de repetição das eleições

Antes da votação, Feijóo fez-se fotografar com todos os deputados e senadores do Partido Popular à porta do Congresso, em Madrid

Antes da votação, Feijóo fez-se fotografar com todos os deputados e senadores do Partido Popular à porta do Congresso, em Madrid

JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images

Catalães fazem reivindicações que a Constituição não permite. Pedro Sánchez espera indigitação por Filipe VI, que recebe os partidos segunda e terça-feira. A confirmar-se, o socialista tem dois meses para negociar apoios para o Parlamento viabilizar o seu terceiro Governo

O fantasma da repetição eleitoral sobrevoou o hemiciclo do Congresso dos Deputados espanhol durante a segunda parte da sessão de investidura como candidato a primeiro-ministro de Alberto Núñez Feijóo, presidente do Partido Popular (PP, centro-direita), esta sexta-feira de manhã. Conforme previsto, fracassou. O político galego contou com 172 votos: 137 do seu grupo parlamentar, 33 do Vox (extrema-direita) um da Coligação Canária e outro da União do Povo Navarro, ou seja, 172 em 350 votos possíveis.

Contra o dirigente conservador votaram 177 deputados: 121 do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda, do primeiro-ministro Pedro Sánchez); 31 da frente de esquerda radical Somar (aliada do PSOE no Governo); sete da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e seis do Juntos pela Catalunha (JxC; um deputado deste partido emitiu voto nulo, por se ter enganado); seis do Unir o País Basco (historicamente ligado ao terrorismo da ETA) e cinco do Partido Nacionalista Basco (PNV); e o do Bloco Nacionalista Galego. Por ter tido mais votos contra do que a favor, Feijóo falhou (enquanto a votação da passada quarta-feira exigia maioria absoluta, nesta bastava maioria simples).

Líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo

SUSANA VERA/REUTERS

Sustentado pelos seus deputados como líder indiscutível, Feijóo resignou-se ao papel de chefe da oposição, caso Sánchez consiga apoios para governar, depois da previsível indigitação pelo rei na próxima semana, depois e ouvir os partidos. Esta sexta-feira à tarde Filipe VI recebeu a visita da presidente do Congresso, a socialista Francina Armengol, que lhe comunicou oficialmente o resultado da votação da manhã. O monarca marcou audiências com os partidos segunda e terça-feira. O PSOE confia que a investidura de Sánchez possa acontecer numa de duas terças-feiras de outubro: 17 ou 24.

Catalães sobem a parada

Embora os holofotes focassem Feijóo, as escassas possibilidades de surpresa desviaram a atenção para as exigências do independentismo catalão. As novas condições dos partidos nacionalistas para apoiarem as aspirações do primeiro-ministro dificultam uma negociação já de si complicada.

Superando a tradicional rivalidade entre ambos, os dois partidos mais representativos do separatismo concertaram-se para aprovar no parlamento autonómico catalão uma resolução que os compromete a não facilitar a investidura de Sánchez (para a qual os seus votos são imprescindíveis) se o socialista não prometer por escrito “trabalhar para tornar efetivas as condições para a celebração de um referendo”. A proposta, viabilizada através da abstenção da Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical independentista) eleva o preço que o socialista terá de pagar pela investidura.

A nova exigência do independentismo causou imediata e dura reação do PSOE e da sua sucursal catalã, o PSC (Partido dos Socialistas da Catalunha). O líder regional, Salvador Illa, ex-ministro da Saúde, assegurou que “por esse caminho, não; se for preciso ir a eleições, iremos”. A posição de Illa, pactuada com a cúpula do PSOE em Madrid, ergue uma barreira que não surgira até agora face às constantes e crescentes exigências dos grupos que defendem a secessão da Cataluha. No seu comunicado, a direção socialista insiste em que ao contrário da amnistia, que seria possível encaixar no quadro constitucional, o referendo “não é negociável nem possível”.

O independentista Pere Aragonès, presidente do governo regional catalão, durante as celebrações do Dia Nacional da Catalunha, a 11 de setembro

Alberto Paredes/Europa Press/Getty Images

Fontes do PSOE creem que, aproximando-se um cenário real de negociações para a investidura de Sánchez, os grupos de quem este depende, sobretudo os separatistas catalães, querem colocar-se numa posição de exigência máxima, para obter o máximo de cedências possível. “Mas se a corda esticar demasiado, pode rebentar”, alertava ao Expresso um membro da Executiva Federal do PSOE, à porta do Congresso dos Deputados, pedindo anonimato para respeitar a ordem de discrição do partido.

Feijóo, teoricamente o maior beneficiário em caso de repetição das eleições, aludiu vagamente a tal hipótese no discurso de dez minutos em que afirmou a sua posição face à segunda votação de investidura: “Só restam duas saídas: o Governo da mentira ou novas eleições”.

Sánchez em silêncio irrita Feijóo

O popular enumerou com dureza as contradições políticas do adversário Sánchez, que há semanas recusava, por inconstitucionais, a amnistia aos processados pelos delitos do processo independentista de outubro de 2017 e um referendo de autodeterminação, hoje assunto fundamental da negociação com ERC e JxC. “Amnistía? Eu digo que não, e o senhor? Referendo? Eu digo que não, e o senhor?”, lançou da tribuna do Congresso.

O candidato derrotado esforçou-se por romper o silêncio que o socialista se impôs nestes assuntos até ser formalmente designado pelo monarca como candidato à investidura. Pela segunda vez na mesma semana, o primeiro-ministro em gestão não respondeu aos discursos de Feijóo, delegando no deputado Óscar Puente.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez não quis responder ao adversário Núñez Feijóo, preferindo delegar no deputado Óscar Puente

JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images

A sessão parlamentar deu azo a menos incidentes verbais do que a de quarta-feira. Um erro na votação deixou o resultado final em 172-177 com um voto nulo (um independentista catalão disse “sim” a Feijóo por engano, emendando depois), mas manteve-se o tom duro entre representantes dos grupos parlamentares. O líder do PP acusou Sánchez de querer “ser primeiro-ministro à custa da dignidade e da igualdade entre todos os espanhóis” e advertiu-o de que “não há êxito possível baseado no engano e na mentira”.

Vox foi obstáculo a conversações com bascos

Santiago Abascal, chefe do Vox, que sempre apoiou Feijóo, acusou o governante socialista de ser “o maior corrupto” e descreveu-o como “político que amnistia outro político a troco dos seus votos para se manter no poder”. Não dispensou o tom ameaçador ao afirmar que “a amnistia é uma agressão ao povo espanhol, que tem o direito e o dever de se defender, coisa que fará; não venham depois com choraminguices”.

Também houve farpas a Feijóo. O JxC, que fora a independência tem afinidade ideológica com o PP, criticou a ausência de propostas positivas deste “para superar o conflito político na Catalunha”. Pelo contrário, Feijóo só prometeu criar um novo delito de “deslealdade constitucional”. O PNV, cortejado desde cedo pelo PP, chama a Feijóo “agressivo, arrogante e desafiante”. O seu líder parlamentar, Aitor Esteban, repetiu que “o PNV tem por princípio não fazer política com a extrema-direita”, pelo que não pode “entrar na equação com o Vox”, apoiante de Feijóo.

Este último declarou-se, ainda assim, “muito satisfeito”, no final do debate. “Valeu a pena”, assegurou aos jornalistas. A secretária-geral do PP, Cuca Gamarra, corroborou esta impressão: “Pode-se perder a votação, mas ganhar o debate. Foi o que aconteceu hoje”.